Durante anos homens e mulheres (principalmente mulheres) foram aprisonados dentro de "igrejas" com a doutrina de usos e costumes, doutrina meramente humana.
A ditadura dessas igrejas, feriram muitas pessoas e fizeram muitas saírem das igrejas, pois se sentiram discriminadas e rejeitadas.
A mulher não vista roupa de homem e nem o homem, vista roupa de mulher, a mulher não pode usar maquiagem, adornos, penteados, tranças e etc pois isso é pecado, mas o que realmente a biblia diz sobre isso? Hoje vamos estudar os textos de Deuteronômio 22.5 e 1Pedro 3:3 e 1 Timóteo 2:9.
Para estudarmos a bíblia temos que ler texto e o contexto não esquecendo que a bíblia fala de história, geografia, cronologia e costumes da época.
O que é roupa de homem e roupa de mulher?
Vamos primeiro analisar Deuteronômio 22.5
Deuteronômio 22:5 é um dos versículos mais fora do nosso contexto hoje, então precisa entender o que acontecia em Canaã naquela época.
"Não haverá traje de homem na mulher, e nem vestirá o homem roupa de mulher; porque qualquer que faz isto, abominação é ao Senhor teu Deus."
Existem 3 contextos principais que os historiadores apontam:
1. Contexto religioso pagão
Nos povos cananeus e assírios ao redor de Israel, existia o culto a deuses como Ishtar / Astarte e Anate. Nesses cultos de fertilidade, a troca de roupa era parte do ritual.
Homens se vestiam de mulher e mulheres de homem para cultuar, e isso envolvia prostituição cultual e orgias. Era uma forma de tentar confundir ou agradar os deuses da fertilidade.
Para Israel, que tinha acabado de sair do Egito e ia entrar numa terra cheia desses cultos, Deus estava dizendo: "Vocês serão diferentes. Não imitem as práticas religiosas deles". A palavra "abominação" em Deuteronômio quase sempre é usada para coisas ligadas à idolatria.
2. Contexto de engano e proteção
No mundo antigo, roupa era documento. Só pelo manto você sabia se a pessoa era homem, mulher, viúva, sacerdote, soldado.
• Um homem vestido de mulher podia entrar na tenda das mulheres para se aproveitar delas.
• Uma mulher vestida de homem podia fugir para o exército ou entrar em lugares onde só homens podiam estar.
• Na guerra, também era usado para se disfarçar e escapar.
A lei protegia a distinção social e a segurança, principalmente das mulheres.
3. Contexto de ordem da criação
Todo o capítulo 22 de Deuteronômio fala de Deus gostar de distinções: não misturar semente na plantação, não misturar tecidos, não misturar animais na lavoura.
Não é porque misturar é pecado em si, mas era uma forma didática de ensinar para Israel: assim como Eu separei luz e trevas, homem e mulher, santo e profano, vocês também vivam com distinção.
Então não era sobre calça ou vestido.
Na época de Moisés, homem e mulher usavam túnicas parecidas. O que mudava eram detalhes, cores, ornamentos e acessórios. O que estava proibido era apagar intencionalmente a diferença entre masculino e feminino, especialmente para fins pagãos ou imorais. O princípio era de não viver como o sexo oposto de forma intencional.
Hoje na nossa cultura existe o traje feminino e o masculino, continua havendo distinção dos sexos. Existe calça comprida feminina e existe a masculina, se um homem veste as roupas femininas está descaracterizando o sexo a qual pertence, e virse e versa. Portanto vamos deixar de lado a ignorância e abrir o entendimento e ver do que realmente o texto fala.
Agora vamos para o contexto que está em 1 Pedro 3:3 e 1 Timóteo 2:9.
Da mesma forma, quero que as mulheres se vistam apropriadamente, adornando-se com modéstia e discrição, não com tranças ou ouro, nem com pérolas ou roupas caras,1 Timóteo 2:9 NVI
Paulo fala para Timóteo que mulheres se vistam com decência, não com sensualidade e ostentação.
Mas o que me chamou a atenção é que ambos falam de tranças, o que seria essas tranças? É igual as nossas? Por que falaram sobre tranças? Estamos pecando se fizermos tranças ?
Como falei no início, precisamos saber o contexto da época.
O contexto é Roma no século 1:
1. O que eram essas tranças?
Era um processo que levava horas, feito por escravas cabeleireiras. Elas faziam torres de cachos, tranças entrelaçadas com fios de ouro, pérolas, pedras preciosas e até perucas. Historiadores chamam de tutulus ou coques altíssimos. Quanto mais alto e cheio de ouro, mais rica e importante a mulher parecia.
Era literalmente ostentação. Um penteado podia custar o salário de um ano de um trabalhador comum.
2. Por que Pedro e Paulo falam disso?
Quando uma mulher rica chegava com aquele penteado todo trabalhado, com ouro e vestido de seda púrpura - que era caríssimo - ela fazia duas coisas:
• Chamava toda a atenção para si, e não para Deus
• Humilhava as mulheres pobres, que não podiam competir
Então o ensinamento de Paulo e Pedro não é sobre o penteado em si, mas sobre o coração por trás dele: vaidade, competição, mostrar superioridade social.
O contraste que eles fazem é claro:
Trança com ouro, pérola , vestido caro, levava a beleza exterior que passa e divide a igreja.
Pudor, modéstia, boas obras, coração manso, levava a beleza interior que vale para Deus.
A palavra "tranças" não se refere à trança simples que a gente faz hoje.
Por isso hoje a maioria dos estudiosos entende que o texto não proíbe a mulher de trançar o cabelo, usar brinco ou se arrumar. Ele proíbe o exagero vaidoso, caro e sensual que era o costume daquela cultura.
Tinha também um contexto de idolatria
1. O principal motivo era status e sensualidade.
Em Éfeso, onde Timóteo pastoreava, e na região onde Pedro escreveu, o padrão de beleza era romano. As mulheres que usavam essas tranças com ouro e pérolas eram:
• Mulheres da alta elite, esposas de senadores
• Cortesãs de luxo e prostitutas de alto nível
• Atrizes, que na época eram vistas como imorais
Era um penteado para dizer "eu sou rica, disponível e poderosa". Então o problema que Paulo e Pedro combatem ali é mais social e moral do que ritual.
2. Onde entra a idolatria?
Em Éfeso ficava o Templo de Ártemis, uma das 7 maravilhas do mundo antigo. O culto a Ártemis tinha festas com muita ostentação, vaidade e imoralidade sexual.
As sacerdotisas e mulheres ligadas a esses cultos se arrumavam exatamente assim: cabelos super elaborados, muito ouro, roupas chamativas para atrair olhares e adoradores.
Então para um judeu convertido, aquele visual todo lembrava na hora o culto pagão. Era o uniforme do mundo idólatra. Quando uma cristã entrava na igreja vestida igual a uma devota de Ártemis, ela passava a mensagem errada, mesmo sem intenção.
Não era que fazer trança era fazer um ritual para outro deus. Era que aquele estilo de trança era a marca cultural da mulher pagã, vaidosa e sensual da época.
É a mesma lógica de hoje: não é que usar uma marca cara seja idolatria, mas se aquela marca representa um estilo de vida totalmente oposto ao que a igreja ensina, Pedro e Paulo diriam para evitar. É sobre com qual intuito você está fazendo, é pra ostentação? É pra aparecer? É para humilhar alguém? Tudo tem quer ser feito para a glória de Deus e não para a nossa.
• Entre as tranças tem fio de ouro, pérolas e joias penduradas
• Levava horas e várias escravas para fazer
Era isso que Pedro e Timóteo estavam vendo na igreja. Uma mulher chegava assim e todo mundo olhava só para o cabelo dela. Era pura ostentação de riqueza, igual hoje alguém chegar com bolsa e relógio de milhões.
Chegam com seus carros importados, com bolsas caríssimas, seus rolex, para mostrar que podem, enquanto membros de suas igrejas passam necessidades, estão vivendo com dificuldades financeiras, e os que ostentam não estão nem aí para o próximo, querem continuar aparecendo, em evidência, em estatus.
"E tu, ó devastada, que farás? Ainda que te vistas de carmim, ainda que te adornes com enfeites de ouro, ainda que te pintes em volta dos olhos com antimônio, debalde te farias bela"
Jeremias 4:30
Jezabel também é citada: "Quando Jeú chegou a Jizreel, Jezabel ouviu; então se pintou em volta dos olhos, e enfeitou a sua cabeça"
2 Reis 9:30
Nesses casos a pintura dos olhos não é condenada por ser maquiagem, mas porque estava associada à sedução, prostituição e idolatria.
A Bíblia não tem um versículo dizendo "maquiagem é pecado" ou "tal roupa é proibida", mas ensina o princípio de modéstia, pudor e não se conformar com costumes que levam à imoralidade.
Por isso Pedro e Paulo falam para não ser esse o adorno, para não viverem uma vida de aparência. Pois Deus não aceita aparência de homens (Gálatas 2.6).
"O Senhor não vê como o homem vê; o homem olha para a aparência exterior, mas o Senhor olha para o coração". 1 Samuel 16:7
Cristina Maria Silvano do Nascimento/cris-silvano@hotmail.com
• 1 Timóteo 2:9 e 1 Pedro 3:3-4, no grego original a palavra usada para trança é plegma / emploke, que significa trança entrelaçada, elaborada.
• Deuteronômio 22:5 e o contexto de Levítico 18 sobre práticas cananeias.
Arqueologia e história romana:
• Historiadores como Ovídio e Juvenal, que viveram naquela época, reclamavam do tempo e do dinheiro que as mulheres romanas gastavam nessas tranças com ouro e pérolas.
Contexto religioso do Antigo Oriente:
● Escavações em Ugarit e textos sobre o culto de Ishtar/Astarte descrevem rituais de troca de roupas entre homens e mulheres.
●Comentários bíblicos como o de Keil & Delitzsch e o Dicionário de Antiguidades Judaicas explicam esse fundo de Deuteronômio.